Música muito popular brasileira

Quem merece o selo de música popular brasileira? Folha analisa 134 bilhões de execuções no YouTube para descobrir o que os brasileiros ouvem e como, quando, onde e por que.

O que ouvem os brasileiros

Os fãs de MPB estão concentrados em cidades litorâneas, assim como os de gospel e reggae. O funk paulista domina áreas centrais das regiões Sul e Sudeste. Já o sucesso da Galinha Pintadinha é homogêneo. Afinal, que gênero merece hoje o rótulo de música popular brasileira?

A artista mais ouvida do país, a cantora sertaneja Marília Mendonça, 22, tocou 31 vezes mais que Chico Buarque, 73, nos últimos três anos. Mas por que sertanejo, funk e gospel dominam as paradas hoje? Os brasileiros realmente trocaram rádio pelo celular como ferramenta para ouvir música hoje? De que forma as novas tecnologias transformaram a produção musical de gêneros populares nas periferias?

Nesta matéria a Folha investiga esses e outros temas a partir de entrevistas, estudos e, principalmente, dados do YouTube —plataforma digital mais usada para ouvir música no país e no mundo. A análise de 134 bilhões de execuções, de 2014 a 2017, permite traçar a geografia dos fãs de artistas nacionais e estrangeiros pelo território nacional. O retrato se propõe como um convite a se afastar das bolhas sociais e descobrir o que faz os ouvidos dos brasileiros.

Artistas ecléticos atraem fãs ecléticos

Dividir a música em categorias é até bem simples. Gêneros como samba, rock, reggae, moda de viola ou bolero têm formatações rígidas para que ninguém confunda um pagode “batucável” numa caixa de fósforos com uma peça de jazz composta para big band de 20 instrumentos. Mas atualmente surgem artistas que desafiam essas classificações.
Nas duas últimas décadas, os gêneros começaram a ser permeáveis a apropriações de sucessos de outros. Uma gravação que pode funcionar como marco desse crossover é “Menina Veneno”, hit do cantor Ritchie na explosão do rock brasileiro em 1982 que ganhou versão de Zezé Di Camargo & Luciano em 1995. Foi tranquila a reação do público sertanejo, que sorriu e balançou os braços nos shows para saudar a pegajosa letra do “abajur cor de carne”.
Quem passou dos 40 ou dos 50 sabe que as tribos musicais já tiveram papel forte na definição social do indivíduo. Na década de 1960, por exemplo, gostar de MPB quase obrigava o sujeito a pregar contra o rock colonizado das guitarras elétricas. Ao fã de jazz era proibido apreciar o desfile de música brega no programa do Chacrinha.
Nos anos 1990, artistas classificados como “ecléticos” ajudaram a derrubar esses currais de gênero. Marisa Monte, capaz de elencar no mesmo disco a Velha Guarda da Portela e o rock dos Titãs, foi um dos exemplos mais intensos dessa miscigenação. Hoje, esse processo desemboca num samba do crioulo doido, ou melhor, num sertanejo universitário do crioulo doido. Aí colabora bastante uma questão mercadológica de sobrevivência.
Depois de uma alternância de gêneros predominantes na música brasileira, que durante décadas levou ao topo a música pop de origem nordestina, o rock, o axé, o sertanejo, a lambada, uma nova MPB e o pagode, surgiu o chamado sertanejo universitário.

FÃ COMPARTILHADO

O nome vem mais da intenção de atingir um público jovem e urbano do que propriamente uma qualidade de ensino superior aplicada a letras e melodias. Mas, pela primeira vez, o gênero que estava antes na crista da onda, o pagode, mostrou capacidade de se reinventar, também mirando o mesmo público.

Nomes como Thiaguinho, Mumuzinho e Rodriguinho têm em comum, além da fixação no diminutivo, a capacidade de manter seu pagode em destaque mesmo com a avassaladora caravana puxada por Michel Teló, Luan Santana e Gusttavo Lima.

Com a boa resposta de um público comum, formado pelos tais universitários, colocar lado a lado no mesmo palco pagodeiros e sertanejos se tornou frequente e lucrativo. Nos últimos três anos, a turma do samba moderninho não sucumbiu, embora fique acomodada numa posição abaixo do sertanejo universitário, que protagoniza uma dominação sem precedentes.

E faz isso abrindo cada vez mais o leque para assimilar outros gêneros. A sofrência, o arrocha e até um funk mais pop e palatável convivem tranquilamente com o sertanejo, numa música mestiça. O artista de sucesso absorveu essa variedade. Anitta já gravou funk, charme, soul, pop romântico, reggaeton, rock e sertanejo. Classificar a cantora é tarefa intrincada.

Escalar para a mesma noite e o mesmo palco nomes como Luan Santana, Péricles, Pabblo Vittar e Ivete Sangalo não assusta mais ninguém.

Fonte: Thales de Menezes (Folha de São Paulo).